A Fazenda Foge-Homem e sua tradição


No norte do Piauí, seguindo atualmente pela malha estadual que dá acesso às cidades de Juazeiro e Castelo do Piauí, em lugar de imensa beleza campestre, com rios e riachos que correm serpenteando nesta larga extensão de terra, encontra-se a secular fazenda Foge Homem. O vaqueiro da região até hoje chama-a “Fojome”. Rodeada por outras fazendas, em lugar excelente para se criar gado grande e pequeno, a fazenda Foge Homem ganhou destaque no cenário histórico de Campo Maior. 

Não se sabe exatamente a data de sua origem, porém, ela figura junto com outras fazendas de grande importância local e estadual. Foi fazenda que abrigava escravos, sendo assim um excelente ponto de partida para se pesquisar sobre a escravidão em Campo Maior. Tornou-se um dos importantes currais de gado de Campo Maior no século XIX.

A antiguidade da fazenda Foge Homem é indiscutível. Ela está registrada em um mapa de 1850, com a seguinte inscrição:

"CARTA TOPOGRÁPHICA E ADMINISTRATIVA DA PROVÍNCIA DO PIAUHY. ERIGIDO SOBRE OS DOCUMENTOS MAIS MODERNOS PELO VCDE. J. DE VILLIERS DE LI´LIE ADAM. GRAVADA NA LITHOGRAPHIA IMPERIAL DE VR. LARÉE".

No Brasil, o mapa foi publicado pelos irmãos Carneiro, em 1850. Em outro mapa, ainda mais antigo, de 1828, confeccionado em Munique, Alemanha, a fazenda Foge Homem ganha destaque, pertencendo às terras da Vila de Campo Maior, e formando seu conjunto de fazendas mais importantes. A Foge Homem, em seu formato original, remonta aos idos da segunda metade do século XVIII, portanto, uma fazenda setecentista, sendo assim, um dos mais antigos currais de gado de Campo Maior, cuja a história é pouco conhecida e sua importância socioeconômica tem sido muito negligenciada. 

A região onde a fazenda está situada é de aparência ambígua: bela e sinistra. Existe um magistral abismo, onde, em tempos de inverno, corre célere um rio de poderosa correnteza que precipita suas águas no paredão rochoso, formando uma magnífica cachoeira, com uma queda de quase 40 metros de altura. A lenda do nome da fazenda, denominada FOGE HOMEM, está diretamente ligada a esse rio e a esse abismo. Existe uma lenda antiguíssima sobre a origem do nome FOGE HOMEM. Segundo Heitor Castelo Branco Filho, que já foi proprietário da fazenda, o “singular nome [foi] copiado da DATA de demarcação de mesmo nome, a qual pertence, no município de Campo Maior, Piauí.” (CASTELO BRANCO FILHO, 2011, p. 122). Em outras palavras, a região onde a fazenda está instalada já era chamada Foge Homem; assim, à fazenda foi dada a mesma designação da região. A lenda reza o seguinte: 

Contava-se que certo vaqueiro seguia em desabalada carreira cavalgando fogoso corcel em perseguição a um boi velho. Em certa altura da atropelada, o boi tomou o leito seco de um riacho. O vaqueiro já estava muito próximo ao bovino, já quase o alcançando, quando subitamente ouviu uma forte voz de comando: FOGE-HOMEM! O vaqueiro saltou do cavalo em disparada, pois tempo não havia para sofrear o animal, que juntamente com o boi precipitou-se em profundo abismo, onde ambos se excidiram. Esse precipício, de cerca de 30 metros de profundidade, pode ser visitado, pois, à margem da estrada Campo Maior-Castelo, na Fazenda Pedras Negras, de Adalberto Correia Lima. (Ibid, pp. 122-123).

A lenda é realmente bem conhecida na região, principalmente pelos mais antigos moradores do lugar. José Damião e João Cristino da Paz – e muitos outros – antigos moradores, deixaram aos seus filhos e netos a tradição da lenda que foi imortalizada por Heitor Castelo Branco Filho. Em cronologia simples, a lenda do nome Foge Homem remonta, no mínimo, cerca de dois séculos. Porém, não podemos esquecer que a força do imaginário é muito vigorosa. A história parece ter sofrido alterações e transformações ao longo do tempo. 

Em documentação inédita, constando de informações gerais sobre Campo Maior, enviadas diretamente pelo Conselho Municipal, no mês de abril do ano de 1881, a fazenda parecia ser designada com este nome por outro motivo. Não se menciona nada a respeito da lenda da voz misteriosa que bradou ao vaqueiro, ordenando-lhe que fugisse da montaria. Ao mencionar as potencialidades das terras daquele setor, os conselheiros de Campo Maior citam o sítio de João Antônio Pacheco e José Alexandre Teixeira, lembrando que suas terras são potencialmente produtivas, ricas em águas, que podem ser canalizadas para a irrigação. Mencionam ainda que a terra é muito boa para a criação de gado bovino. Lembram, no entanto, que as terras estão abandonadas a anos. Ao falar disso, o relatório dos conselheiros de Campo Maior pontua a existência de um riacho bravio e desafiador, que segue em um acentuado declive. Os conselheiros explicaram a origem do nome FOGE HOMEM de outra forma. A citação segue mantendo a grafia original: 

"AO LESTE DA VILLA, EM UM RUMO DIRECTO, EXISTE UM RIACHO DENOMINADO SANTA MARIA, EM CUJO LEITO LAGIADO, SE NOTA UM DESPENHADEIRO MEDONHO QUE FORMA UM TAIADO DE MAIS DE 400 METROS D’ALTURA [40 METROS], FORMANDO EM BAIXO UM POÇO D’ÁGUA DE GRANDE PROFUNDIDADE FEITO PELO DESPENHADO DAS ÁGUAS NA ESTAÇÃO CHUVOSA DO QUAL SEGUE O MESMO RIACHO SEU CURSO. NA DISTANCIA D’ELLE, AO LADO DE CIMA NAS ENCHENTES DA CHUVA, NÃO SE PODE PASSAR, PORQUE TUDO QUANTO ENTRA NO SEU LEITO, É LEVADO PELA EXTRAORDINÁRIA CORRENTE A PRECIPITAR-SE NO REFERIDO DESPENHADEIRO, PELO QUE TOMOU UMA FAZENDA DE GADO VIZINHA A DENOMINAÇÃO – “FOGE-HOMEM” (Anais da Biblioteca Nacional. Conselho Municipal de Campo Maior. Relatório Anual, 1881). 
Dessa forma o nome Foge Homem, segundo consta neste documento do Conselho Municipal de Campo Maior, era uma advertência contra o suicídio de tentar fazer a travessia do riacho no inverno, visto que suas águas fatalmente arrastariam qualquer pessoa ao abismo, com queda de quase 40 metros de altura. Qualquer “homem” inteligente deveria “fugir” de tentar vencer suas águas.
Marcus Paixão, professor/historiador, para o 180 Graus

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