Açude Estrela - Lembranças de uma infância difícil
Quando chegamos em Campo Maior pelos idos de 1980, a vida era muito difícil. Éramos 13 pessoas na mesma casa. Pai, mãe e 11 filhos. O mais velho, logo uniu-se a uma moça e foi viver a sua vida, começando uma nova família. Os outros até tentavam se virar, trabalhando com o que aparecia, mas eram tempos de muitas dificuldades.
Nosso pai foi trabalhar como entregador na antiga Padaria Brasil, do saudoso Chico Alves. E nossa mãe precisava também se virar pra suprir a gente de roupas e calçados. Uma das poucas alternativas de trabalho era "lavar roupa pra fora". Ela conseguiu uma cliente que morava ali na Nilo Oliveira, dona Joaninha, esposa de seu Antônio Sobrinho, criador de gado, ambos de saudosa memória. Éramos pequenos mas até tentávamos ajudar no transporte da enorme trouxa.
Tanque ou máquina de lavar em casa? Imagine! O local era o Açude Estrela ou a Barragem do Surubim. E era assim mesmo: pôr uma enorme trouxa de roupas na cabeça e sair a pé em direção a barragem ou ao açude do Parque Estrela. Não havia transporte. Nem mesmo uma bicicleta.
Minhas maiores lembranças estão ligadas ao Estrela. Não era um açude tão grande. Tinha água limpa e algumas pedras nas margens. As vezes era preciso disputar as lajes com outras lavadeiras. Ensaboa, ensaboa, ensaboa e põe pra "quarar". E os pequenos ficavam de vigia. Mas também dava pra mergulhar e se divertir.
Tinha uma estradinha de piçarra, carroçal, às margens do açude. Eu ficava imaginando onde ela ia dar.
Esses dias me deu na veneta, e fui ver o velho Estrela. Queria encontrar também a sede da antiga Fazenda Estrela que existia por ali. Fazia muito tempo. Tive que me informar com os moradores. Me encaminharam para uma casa, dessas com ares de fazenda, a apenas alguns metros da área urbanizada. Muito verde ao redor e um terreiro grande na frete, com muitas flores.
Dona Maria Ducarmo foi quem me atendeu. Ela e o marido, seu Antônio José Lustosa, são os proprietários. A casa, segundo ela, já foi sede de uma fazenda, a Jordão. Perguntei pelo velho açude e ela apontou rapidinho. Era logo ali do lado. Deu pra ver a água de longe. Mas olha a minha surpresa. Eu esperava que sua área estivesse tomada. Não há mais gado por ali, aparentemente. As pessoas têm água encanada. Achava que o velho açude havia perdido sua utilidade. Mas não! Parecia igual como era antes. A vegetação em volta, as pedras, a estradinha de carroçal, tudo. Havia até pássaros voando em volta e o por do sol sobre as águas rendeu belas imagens. E isso a pouquíssimos metros da área urbana.
Uma coisa me deixou triste: avançando um pouco pela estrada, me deparei com lixo jogado nas suas margens. Bastante lixo e urubus que eram atraídos por ele. Uma pena. Nessa época do ano o verde abunda e tudo fica muito bonito. Ao fundo da paisagem de descampado e carnaubeiras está a majestosa Serra de Santo Antônio. O lixo ali é um intruso indesejado.
Fui ver também a velha sede da Fazenda Estrela. Pra minha surpresa, o velho casarão foi engolido pela urbanização. Curiosamente eu havia passado por ele outro dia, mas não me dei conta. Fica numa rua de nome São Tomaz, no Bairro Parque Estrela. Rua calçada, com outras casas aos lados e na frente. Ali tem uma estrutura velha do que seria uma escola. Não tão velha. O aspecto mesmo é de abandono. Na frente da antiga Fazenda tem um pé de tamarindo centenário. Ou bicentenário, quem sabe até tri. E ainda hoje bota.
A atual moradora não sabe a história dos primeiros proprietários. Mas a vizinha da frente, dona Socorro, é nora do antigo dono. Ela contou que ele se chamava Luís Alves, conhecido como Luís Chuíba. Tudo ali em volta era vegetação e descampado. O gado tomava conta da área. Tinha ares de zona rural realmente. Virou cidade. Muitas vidas passaram por aquele casarão. O ambiente em volta mudou radicalmente, mas ele permanece de pé, como uma testemunha da história.
Rever o açude ascendeu minhas lembranças da infância. Dos tempos difíceis, das lutas intermináveis de nossa mãe. Fico imaginando que nós mesmos, as vezes esquecemos das peças de roupa que temos. Agora imagine pegar uma trouxa enorme, lavar e passar e dar conta de cada peça!! E ainda tem mais, o ferro era à brasa. Nada de moleza de ferro elétrico, não!
Nossa mãe conta que, numa ocasião, já no fim do dia, ela se viu sozinha no velho Estrela, já recolhendo as roupas para voltar, quando o gado da fazenda vizinha veio todo para beber. Muitos bois e vacas. Alguns touros enormes e seus chifres pontiagudos, todos ali, em volta, baldeando a água. Ela chorou muito de medo e de angústia. E ali mesmo fez uma oração a Deus. Ela pediu uma porta aberta, para que não precisasse mais se submeter àquela situação.
Dito e feito! Uma semana depois ela estava atendendo a clientela em uma vitrine de pães e bolos da Padaria Brasil, que ficava na entrada do antigo Supermercado Paz. Ali ela trabalhou por 8 anos.
Um blog pessoal é uma ótima oportunidade de resgatar essas memórias. São coisas simples e que pra maioria não vai ter muito significado. Mas para nós que vivemos tudo isso, sem dúvidas significa muito. Obrigado a quem leu até aqui e, se você se identifica de alguma forma, com algo ou alguém que foi citado, deixe na sessão de comentários.
Seu amigo
Walton Carvalho

Parabéns Walton Carvalho pela autoria do texto.A mim trouxe boas recordações de minha infância dif8cil mas feliz
ResponderExcluirAdorei a história, parabéns, eu quando vim morar aqui no parque estrela a 10 anos atrás , ali do lado do casarão nao tinha casa nenhuma muito menos a construção daquela escola, só era o casarao rodeado de mato somente, hoje tem casa pra todo lado . Mais uma vez parabéns
ExcluirValeu, pessoal.
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