Personalidades de Campo Maior: Mariema Nogueira Paranaguá da Paz

Nossa querida capital dos carnaubais, Campo Maior, é muito rica de história, cultura e de personalidades que ajudaram a construir quem somos. Nossa coluna tem o prazer de fazer referência a uma dessas personalidades, uma filha ilustre do extremo sul do Piauí que veio a se tornar uma de nossas primeiras-damas e, portanto, filha ilustre daqui também. Esta é uma singela homenagem a Dona Mariema Nogueira Paranaguá da Paz. 
Mariema Nogueira Paranaguá da Paz 

O nome ‘Paranaguá’ já é um capítulo à parte, que muito tem a ver com a origem da denominação batista no Estado do Piauí a partir da cidade de Corrente, no extremo sul piauiense. Mas isso é uma outra história, que bem podemos contar em ocasião oportuna. 

Mariema nasceu aos 19 de setembro do ano de 1931, em Corrente, numa família de forte tradição evangélica, do segmento batista, e também de grande influência na cidade, os Nogueira Paranaguá. Ali, a menina Mariema deu seus primeiros passos, concluindo o antigo "ginásio" no Instituto Batista Insdustrial (IBC), colégio de onde trás boas lembranças, vindo, inclusive a emocionar-se cantarolando um trecho do hino de sua antiga escola durante nossa entrevista. O Instituto Batista Industrial hoje leva o nome de Instituto Batista Correntino. 
Concluído o ginásio, Mariema foi incentivada pelo irmão Arquimedes a continuar os estudos em Teresina. Assim, logo ela foi parar no Pensionato de Dona Justina, que aceitava apenas moças e apenas 10 por vez, sendo um pensionato muito disputado na época. Ali, todas vinham de famílias católicas e, naqueles tempos, ainda havia muita resistência a outros segmentos cristãos. Mariema, batista desde o berço, e por convicção, precisava dar um jeito de congregar-se. Para tanto, contava com a ajuda de sua amiga Carmelita que, sob a desculpa de irem à praça aos domingos, seguiam juntas para participar dos cultos na Primeira Igreja Batista de Teresina, na Praça João Luís. As duas são muita amigas até os dias de hoje e se falam frequentemente. Em Teresina, Mariema estudou no Instituto Educacional Antonino Freire, a antiga Escola Normal. 

A mudança para Campo Maior 
Quando surgiu a possibilidade de estudar em Teresina, nossa homenageada foi também incentivada por sua irmã Magnólia, à época, já casada com o professor Santana, filho de Campo Maior e que residia por aqui. 

"Você pode passar as férias com a gente em Campo Maior", dizia Magnólia.  

E assim foi. Das férias em Campo Maior vieram os desdobramentos que ocasionaram a mudança da capital piauiense para a capital dos carnaubais. 

O casamento 

Magnólia e seu esposo residiam na Avenida José Paulino, tradicional rua do Centro de Campo Maior, onde situa-se o Colégio Valdivino Tito, em funcionamento até os dias de hoje. Mesma rua de um certo Jaime da Paz, militar, tenente de patente. Mariema não costumava sair de casa. Mas, uma noite dessas, incentivada por um amigo, resolveu ir à praça (Praça Rui Barbosa). Ali, deu de olho no nosso tenente, o que, segundo suas próprias palavras, foi amor à primeira vista. Momento marcante, cuja data ela lembra prontamente: 11 de julho de 1954. Fato que este redator não se deu conta no momento, nem lembrou de perguntar, é que "Vivenda 11 de Julho" é o nome que consta em uma plaquinha que está fixada no muro revestido de pedras da residência onde Mariema sempre morou com seu esposo e a família. 11 de Julho também é o nome da rua onde a Vivenda está edificada. 
O casal Jaime e Mariema, em seu noivado, setembro de 1955

A ida à praça e o encontro com o Tenente Jaime rendeu uma esticadinha até o cinema da cidade, o Cine Nazaré, administrado a época pelo empresário Zacarias Gondim. Daí para o casamento foram pouco mais de 2 anos. Jaime da Paz e Mariema Paranaguá casaram-se em 1957. 

Estamos falando de uma época de tradições religiosas muito rígidas. Jaime era de família católica e Mariema, batista de berço e por convicção. Ela sonhava ser casada por um pastor e ele, devia seguir as tradições da família. Como resolver esse impasse? Em acordo com o pároco local o casamento teria um tipo de cerimônia ecumênica. Porém, o pastor da igreja batista da cidade não concordou naquele momento, o que levou Mariema a solicitar a presença de um pastor batista de outra cidade. Este aceitou de bom grado. E assim aconteceu. As bênçãos de seu casamento foram proferidas tanto pelo padre quanto pelo pastor. 

A formação

Antes de vir a Teresina após o ginásio em Corrente, Mariema esteve no Rio de Janeiro, onde cursou o primeiro ano e metade do segundo, do pedagógico. Chegando na capital piauiense esse período de estudo foi rejeitado e ela teve, portanto, de reiniciar seus estudos como se estivesse ainda saindo do ginásio. Mas isso não foi impedimento. A agora senhora Jaime da Paz, formou-se ao magistério, mas não exerceu a profissão de imediato.  

Certo dia, sua sogra, dona Sicândida Paz, a questionou do por que de não está exercendo o magistério. Algo até surpreendente para a época, já que esperava-se que as moças casassem apenas para cuidar da família. 

Através de sua influência, dona Sicândida conseguiu, junto ao deputado Valdeck Bona, que Mariema fosse nomeada como professora no Colégio Valdivino Tito, sendo esta a sua primeira experiência profissional, onde permaneceu por cerca de dois anos. 

Durante esse período dois alunos em especial lhe marcaram a memória. Alunos com os quais mantém contato até os dias de hoje. Em um dos casos, um garoto com um comportamento muito difícil, que dava muito trabalho aos professores. A metodologia daquele momento, quanto a esses casos, exigia muita rigidez, o que parecia não funcionar com esse aluno em especial. A jovem professora Mariema Paz adotou uma postura diferente, usando de gentileza para com todos, quebrando paradigmas da época e conquistando assim o carinho do nosso aluno em questão e levando-o a mudar o seu comportamento de tal modo que até os pais ficaram surpresos. 

Após o Valdivino, a professora Mariema atuou no colégio Leopoldo Pacheco e também no Ginásio Estadual. Após isso foi convidada a lecionar Metodologia do Ensino no Patronato Nossa Senhora de Lourdes. Mais um desafio para a nossa homenageada, batista de berço, agora lecionando em um colégio católico. E mais uma vez a cordialidade e o respeito mútuos foram exercidos, de modo que nenhum problema ou conflito foi vivenciado durante esse período. Tanto que Mariema conseguia a façanha de levar uma de suas amigas freiras a participar de cultos na Primeira Igreja Batista. Também não se furtava em participar de algumas missas quando necessário.

Primeira-dama

Em 1971 Jaime da Paz foi eleito prefeito de Campo Maior para um mandato de 2 anos. Foi um período curto, mas de grande crescimento para a nossa cidade. Inclusive grande parte da estrutura e urbanização que temos foram implementadas naquela época. A exemplo temos o Mercado Público Municipal e o Terminal Rodoviário Zezé Paz. Mariema, agora primeira-dama, participou ativamente desse momento histórico. Coordenou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) no município, entre outras ações. Um fato que ficou marcado é que o então prefeito, Jaime da Paz, realizava todos os anos seu aniversário tendo entre seus convidados apenas pessoas menos afortunadas, pessoas humildes mesmo. Estas lotavam o pátio da Vivenda 11 de Julho e havia bastante comida para todos. Esses almoços de aniversário foram realizados ano após ano, ao longo de toda a vida de Jaime da Paz e se tornaram uma tradição na cidade.  

Secretária Municipal de Educação

A professora Mariema recebeu um convite para assumir o cargo de secretária municipal de educação durante os mandatos do prefeito Cezar Ribeiro Melo. Apesar de hesitante num primeiro momento ela aceitou o convite. Nossa professora deixa então as salas de aula. Naquele momento o cargo não tinha tantas regalias para quem o ocupava. Pelo contrário. Mariema conhecia o dia-a-dia de cada escola da sede do município e das localidades. Sempre empreendendo esforços para atender as necessidades de professores e alunos. 

Após esse desafio, a professora Mariema Paz finalmente se aposenta.  

A fé

A irmã Mariema continua frequentando a Primeira Igreja Batista de Campo Maior, atualmente sob a titularidade do pastor Alexsandro Conceição de Sousa. Gosta de estar presente, principalmente, na Escola Bíblica Dominical, um hábito tradicional dos batistas em todo o mundo. Ali ela sempre tem oportunidade de compartilhar suas experiências com os mais jovens. A fé em Deus e no Cristo ressurreto é fator preponderante em sua vida. Tanto que seu esposo acabou por confessar a mesma fé através de seu testemunho e influência.  

A família

Jaime da Paz faleceu em fevereiro de 2018 em ditosa velhice, cheio de dias, como diz a Bíblia Sagrada. Mariema e Jaime tiveram 6 filhos, a saber, Mariema (filha), Jaime filho, Luz Bethânia, Gregório Adilson, Héverson e Cândida Maria. Os netos somam 20 e os bisnetos, 18. Entre filhos e netos, acham-se médicos, advogados e dentistas. 
Bodas de ouro, janeiro de 2007

Bodas de diamante, janeiro de 2017. No ano seguinte Jaime da Paz veio a falecer. 

Dona Mariema, Ou Irmã Mariema, por ser evangélica, reside em sua Vivenda 11 de Julho até os dias de hoje, rodeada de filhos, netos e muitos amigos. Encontra-se lúcida e feliz com tudo o que construiu ao longo dos anos. Esta coluna agradece o modo gentil como foi recebida e deseja, da parte do Criador, muitos e muitos anos de vida, saúde e paz a ela e a toda a família. 

Graça e paz da parte do Senhor! 
Por Walton Carvalho

  


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