Braga Primo: Entre a locução e a fotografia


Seguindo pela Rua Dr. Pedro Teixeira, aquela que passa em frente a Associação Atlética Banco do Brasil, atravessando a Siqueira Campos e a Capitão Manoel Oliveira, indo até o final do asfalto, logo após o antigo Grêmio Recreativo, você dá de cara com uma casa cravada de verde claro, onde há mais de 50 anos reside um ilustre campomaiorense. Trata-se do amigo Aureliano Braga Primo, esposo da professora Mundinha (em saudosa memória).

Nascido em junho de 1936, prestes a completar 86 anos, filho da cidade de Campo Maior, pai oriundo da localidade Vila Nova e mãe natural da sede do município, Braga Primo perdeu os pais ainda muito cedo e foi criado por um tio, comerciante, que o ensinou desde cedo o valor do trabalho. Ainda molecote, de calção e sem camisa, ele ajudava no comércio do tio e pai de criação. Entrou no colégio mas fez apenas o básico. Naqueles tempos fornar-se parecia um sonho distante.

Ao longo da sua vida, nosso personagem teve contato com, basicamente, três atividades laborativas: o comércio, a fotografia e a locução. E foi como fotógrafo que este redator o conheceu, através do professor Pinheiro. Da atividade de locutor eu não tinha idéia. 

Quanto a fotografia, Braga Primo, ainda bastante jovem, tinha amizade com dois fotógrafos conhecidos: Joaquim Gomes e Agenor. Ele gostava de observá-los trabalhar. Era fascinante o ofício. 
Naquela época, por volta dos anos 50 e 60, o Cine Nazaré, do Sr. Zacarias Gondim, ainda funcionava. Braga Primo se entretia com pedaços de filmes que eram descartados nas dependências do cinema, e fazia com eles experimentos, tentando fazer atravessar a luz pra ver se a imagem se projetava na parede. Isso sem muito fundamento, apenas a curiosidade. Com o tempo o jovem aspirante a fotógrafo fez um curso por correspondência. É..! Muito antes dos atuais cursos online haviam os chamados cursos profissionalizantes por correspondência. Talvez o leitor se lembre do antigo Instituto Universal Brasileiro. Havia muitas propagandas dele nos gibis que a gente lia. Braga Primo se inscreveu, nas seu interesse mesmo era em receber o kit que vinha com as apostilas. E foi assim que ele começou a dar seus passos como retratista. 

Ansioso para ver as primeiras fotos reveladas, empolgou-se tanto que errou o processo. Partiu direto para o fixador e imergiu o papel no revelador em seguida. Claro que não deu certo. Depois da primeira tentativa fracassada, Aureliano seguiu os passos corretamente e se surpreendeu quando a imagem apareceu diante de seus olhos. Ainda era a época das fotos em preto e branco.  
Naqueles tempos as fotos eram reveladas num estúdio com luz mermelha. E na hora de utilizar as soluções químicas, até às luzes vermelhas eram apagadas. Qualquer réstia de luz poderia estragar a fotografia. 

Braga Primo foi se aprofundando no processo. Investiu em novos equipamentos, tinha parcerias com casas de fotografia de Teresina e Fortaleza, começou a fazer imagens coloridas e em tamanho gigante e começou também a trabalhar com filmagens.  Assim, a alta sociedade campomaiorense foi se tornando clientela fiel. Outros tempos. As famílias gostavam de ter seus entes queridos eternizados em retratos emoldurados nas paredes e nas estantes. 
Braga Primo também gostava de fotografar paisagens. Uma imagem marcante é a de um pescador lançando as redes ao rio, imagem registrada por ele, contra o sol, na comunidade Lagoa do Bode. A imagem ficou tão bonita que o ex-prefeito Bona Carboreto encomendou um quadro de de 1,80m para expor no prédio da prefeitura. Os retratos de paisagens eram expostos em stands nos Festejos de Santo Antônio e até na sede do Banco do Brasil, na época do Paulo Simpaúba. Muitos eventos no antigo Campo Maior Clube eram cobertos pelas lentes do nosso personagem. 

Como fotógrafo, Braga Primo também enveredou pelos caminhos da política. Fez parte da equipe de campanha do ex-prefeito Jaime da Paz. Chegou a ser mestre de cerimônias de alguns encontros, apresentava os candidatos. E foi daí wue o bichinho da locução também o alcançou. 

Naquela época, tempos do governador Alberto Silva, foi inaugurada em Campo Maior a saudosa Rádio Heróis do Jenipapo e nosso Braga Primo era desejoso de integrar a equipe de locução. Chico Silva era o diretor de programação. Os radialistas da época eram o próprio Chico Silva, o Chico de Paula, F. Lima, Arnaldo Ribeiro, Arnaldo Gaudino, Angelino Abreu e o Titio Carlos, entre outros. Cunha Neto também recitava seus cordéis naqueles microfones.  

A Paróquia de Santo Antônio tinha um horário cedido pelo Dr. Cezar Melo. Dez minutos aos domingos. "Encontro com Deus", era o nome. Padre Isaque pediu a uma das freiras que assumisse o programa, mas ela recusou.  Foi aí que Braga Primo começou. Começou fraquinho, disse ele. Mas na época tudo estava no início mesmo e aos poucos ele foi pegando o jeito. Dez minutos se tornaram um tempo muito resumido para ele.
Angelino Abreu tinha um programa bastante ouvido aos domingos. "Me deixa fazer esse programa um dia?",pediu Braga Primo. Ele deixou. O homem foi lá, meio nervoso, e achou mesmo que havia se saído muito mal. No dia seguinte encontrou o vizinho de porta, no trabalho, o Tarzan, também fotógrafo e eletrônico da época. Este disse: "Ouvi o programa ontem. Foi uma porcaria. Se eu fosse tu, desistia." 

Braga Primo lembra que sua sorte foi que o diretor de programação não ouviu aquele primeiro programa. Logo ele teve outras oportunidades e deslanchou. Foi então que o próprio Chico Silva o convidou para assumir o Tarde Sertaneja, programa forrozeiro de todos os dias. Seu Honório, morador da zona rural de Campo Maior, pai do professor Altivo, aquele do terminal rodoviário, ambos de saudosa memória, padecia de uma doença terminal, e o Tarde Sertaneja, com Braga Primo, era uma de suas poucas alegrias diárias. Esse testemunho chegou através do padre que havia visitado o enfermo. Daí em diante, sempre havia uma dedicação do programa ao seu Honório. 

Foi uma época áurea para o rádio campomaiorense. Os radialistas eram bastante conhecidos e benquistos por onde quer que andassem. E não era diferente com Braga Primo. Depois surgiram as chamadas rádios comunitárias e os programas policiais e suas polêmicas. Hoje, os principais veículos locais, acredito eu, são os portais de notícias na internet. 

Finalizo meu texto lembrando do primeiro estúdio de fotografia de seu Braga Primo, o Aurearte. Depois se tornou o Cine Foto Braga Primo, ali na Sen. José Euzébio com a Siqueira Campos. Seu Braga ainda aparece por lá durante as manhãs. Aos 85 anos não abandonou de todo a antiga profissão de fotógrafo. Do rádio se afastou a bastante tempo, a pedido de dona Mundinha, sua esposa, agora falecida. 
Esse texto é apenas uma singela homenagem a Aureliano Braga Primo, campomaiorense, fotógrafo e radialista. Saúde!

Um grande abraço.

Seu amigo, Walton Carvalho





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