O FASCÍNIO DAS PALAVRAS
Onde nasci, sertão do Caracol, falava-se pouco. Não por timidez ou recato, mas por pobreza vocabular. O lugar era longe de quase tudo; os moradores, poucos e as conversas, as mesmas de sempre. Todas as falas gravitavam em torno de três substantivos: terra, sol e chuva. Mais tarde, muito mais tarde, descobri em João Cabral que o sertanejo fala pouco porque “as palavras de pedra ulceram a boca” ...
Ainda me lembro da primeira palavra diferente que ouvi: saracura. Trata-se uma ave rara naquele sertão onde chovia pouco. Uma manhã qualquer, ouviu-se o canto da ave. O irmão industrioso, armado de uma “bate-bucha”, resolveu caçá-la. Por sorte, não a encontrou. Guardei a palavra.
Já na cidade, ouvi, num sermão do padre Nestor, a palavra Cafarnaum. Segundo o vigário, Jesus teria morado lá. Decidi na hora que precisava conhecer o lugar. Na saída da igreja, perguntei a dona Purcina onde ficava Cafarnaum. Ela me olhou espantada, sorriu e fez um gesto vago com a mão. Entendi: “muito além do nosso alcance”.
Quando cursava a terceira série do ginasial, numa seleta organizada por Aída Costa, deparei-me com esta preciosidade: “Hão de chorar por ela os cinamomos”, um verso de Alphonsus de Guimaraens. Por causa da palavra cinamomo, passei a amar o velho poeta simbolista. Muito mais tarde, quando vi as tais flores, muito do encanto se perdeu.
Com Bandeira, descobri Pasárgada, uma cidade Persa, onde o “tísico profissional” podia quase tudo, inclusive montar em burro brado, subir em pau de sebo e amar as prostitutas mais bonitas...
Um dia, por acaso, descobri a Birmânia. Um país minúsculo nos confins da Ásia com inumeráveis templos budistas. Um bom lugar para visitar. Na verdade, pouco ou nada eu sabia dos lugares. O que me fascinava e ainda fascina são os nomes.
Dia desses, parei para revisitar os lugares com nomes mágicos. Só então, descobri minha atração pelo inviável. De Cafarnaum sobraram as ruínas da casa de Pedro e de uma sinagoga. De Pasárgada, as ruínas do mausoléu de Ciro... Quanto à Birmânia, tornou-se Myanmar, um nome idiota. Não bastasse isso, o país vive mergulhado em ditaduras intermináveis.
Bem, para não ficar de mãos vazias, decidi: tão logo a peste me permita, vou visitar dois lugarejos no sertão do Piauí: Sicumbido e Sulidão, ambos nas proximidades de São Braz do Piauí. Duas palavras absolutamente fascinantes. Assim, em vez de atravessar o mar para ver ruínas, visitarei os dois povoados encravados no coração do semiárido. O sábio Borges afirmava: “A palavra é o arquétipo da coisa”. Se é assim, vamos ver o que se esconde no bojo de Sicumbido e Sulidão. Prometo contar tudo a vocês.
Até lá.
Professor Cineas Santos
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