A dura vida no sertão - outros tempos, costumes e comportamentos


 
Quem reclama da sua vida hoje, não faz ideia da dureza do estilo de vida de outrora.




Isso foi em meados dos anos 50, quando Cosminha, que hoje tem 74, quase 75, tinha apenas uns 5 anos. Mas ela lembra muito bem dos tempos em que era "besta pra achar graça" e só parava de gargalhar quando levava uns safanões de Dindinha, nossa vó Eugênia. 

Dindinha tinha viajado do Alegre, onde morava com as crias nas terras de seu "Pelôim, para a casa de sua mãe, Maria Matias, no Poção, município de Campo Maior. Antes de sair ela chamou nossa tia Maria e deu as ordens de como tudo tinha que ser na sua ausência. A comida era contadinha, até os pedaços de rapadura que adoçavam o café eram contados para durar o tempo de sua ausência. 


Tio Zé não entendia porque as coisas precisavam ser assim e, após o magro almoço de arroz com feijão sem mistura, pediu a Tia Maria um cafezinho para tirar o gosto. 

"Não pode! A rapadura tem que durar até a mãe voltar. Se fizer café agora, amanhã de manhã não tem", disse ela. 

Só que a Tia Maria já era mulher feita, pra mais de 20 anos, e estava na sua época dos romances. Manel, que era filho de seu "Pelôim", seguia em sua montaria para o rumo das Bananas, que era outra propriedade do pai, mas, como estava enrabichado de Tia Maria, resolveu dar uma paradinha para dar uma olhada na moça. 

Após a prosa, quando o rapaz se preparava para seguir viagem, Maria falou toda serelepe: "Manel, tu quer um cafezinho?" 


Ora, Tio Zé escultou aquilo e não ficou nada satisfeito. Maria correu a acender o fogo a lenha, colocou a chaleira e o pedaço de rapadura para desmanchar e adoçar a água. Ia de vez em quando dar uma mexidinha para acelerar o processo. 

Foi aí que num intervalo entre as mexidinhas na chaleira, Zé resolveu aprontar uma e substituiu o pedaço de rapadura por uma pedra de mesmo tamanho e correu para atrás da casa para saborear sua rapadura e tirar o gosto do indigesto feijão com arroz. 

Do ponto em que estava, Zé via por uma janela a agonia da pobre Maria, doidinha para agradar o namorado Manel com um cafezinho fresco, mas a diaba da rapadura não desmanchava. Até que ela tirou o que pensava ser um doce para fora da água fervente com uma colher e confirmou sua desilusão: era uma pedra. 

Sua perspicácia a fez perceber logo que só podia ser o Zé o autor da presepada. Ficou com sangue no olho, mas Manel estava ainda no terreiro, teve que se conter e anunciar toda macambúzia que o tão esperado cafezinho não ia sair de jeito nenhum. 


Compreensivo, Manel subiu na sua montaria e seguiu para as Bananeiras. Manel, filho de seu Pelôim (possivelmente Apolônio, mas Pelôim era o que a língua alcançava), não chegou a casar com Maria. O romântico sertanejo, coitado, vinha nessas bandas de Campo Maior com destino a casar-se com outra moça, mas sofreu um terrível infortúnio na ponte das Pintadas, onde morreu vítima de um acidente. Morreu solteiro, sem provar da doçura do casamento, o pobre desafortunado. 

As terras onde Dindinha morava com as crias eram grandes e tinha muita vegetação. Havia um arbusto em especial, cujos galhos flexíveis cresciam, cresciam e, de tão compridos, se encurvavam e formavam uma moita enorme. O pessoal chamava aquilo de Bugí. Maria foi até a moita de Bugí depois que Manel foi embora e separou um galho preparado, o maior que tinha, o limpou e se pôs a correr atrás do Zé. E foi um pega-não-pega daqueles. Do terreiro, a turma toda, Cosminha a mais nova, Chico e o Antônio, Valmira ainda não era nascida, todos agoniados, assistiam o perrengue do pobre Zé. 

No final do terreno estava a porteira e o Zé achou que sua salvação daquela enrascada seria pular de um salto só sobre ela. Maria não iria conseguir, com certeza, e ele tomaria distância. 


Acontece que a mulher estava com o cão nos couros de raiva, aprumou o cipó de Bugí e lascou-lhe a bugizada no lombo bem no momento em que o infeliz tentava passar por cima das peças de madeira. Levou um belo de um abraço de Bugí, tão ardido e tão dolorido que o pobre ganhou esse mundo de meu Deus e só voltou para casa no outro dia. Sabe-se lá se até hoje ele não tem nos lombos a marca. 

Esse conto é o relato de uma história real. De um tempo em que havia muita brutalidade sim, mas em que havia também muito companheirismo e luta desenfreada pela sobrevivência. Maria nunca casou, nas teve filhos e terminou seus dias cuidando dos irmãos após a morte de Dindinha. 

Walton Carvalho 

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